Deambulações por Maria José Castro


Deambulações (17)

Às vezes dou comigo a passear por aí, pensando que sou eu quando, por qualquer motivo, me apercebo que não sou. Parece que por baixo da minha pele há outras que, não sendo minhas, o são. E que por vezes, trocam de lugar e afloram-me. As minhas várias peles revezam-se em mim. E assim de repente cruzo-me comigo própria na esquina de uma rua de Matosinhos e noto que nem eu, nem eu, nos reconhecemos e continuamos a caminhar como duas pessoas distintas. Pergunto-me, nessas ocasiões, quem és tu, mas as minhas várias peles teimam em não responder, gostam de me baralhar …

E dentro de cada pele, a luta pelo que sou, espectadora atenta do que não sou.

Seremos sempre duas, três…as que eu quiser fazer crescer dentro de mim…No entanto, a essência mantém-se.

E  a essa, apenas a minha pele a cobre. Abraçando-a.

                                                        

Deambulações (16)

Recordo-te em mim numa noite da memória quando as mãos se encontraram sem se perderem e as máscaras ficaram pousadas aos pés da cama porque naquele instante não tínhamos desculpa para as usar.

Momentos em que ganhavas corpo entre as pregas do desejo E o tempo era essa espiral de pressa que nos engolia.

Adormecemos no nome um do outro, a noite alongando-se nos teus cabelos, prolongando-se pelos teus braços e derramando constelações sobre lençóis. Tudo se incendiava: os lençóis, as cortinas, os braços, os nossos sonhos, as vozes. Tínhamo-nos contra o tempo e contra o corpo até sermos apenas um e pensarmos na hipótese de morrermos enlaçados pela noite.

Nessa altura, descansámos de todos os carnavais da vida. Tirámos as máscaras, os sapatos grandes de palhaço, a boina de pierrot, as sabrinas de columbina. Despimos o lenço de pirata, o chapéu de bobo, as luvas de ilusionista…Abandonámos todas as vidas anteriores, os momentos desperdiçados, as ausências inventadas, apenas porque , permanecendo assim, um no outro, nos  encontrávamos a nós.

Manter-te em mim demorou toda uma noite.

Mas a manhã chegou, carregada das urgências de partir. Era preciso voltar às máscaras e ao dia. Em cada máscara que vestíamos, perdíamo-nos de ti e de mim , até que o inverno desabou, definitivo, sobre nós.

Hoje vivo de novo os meus mil papeis e sei apenas soletrar o nome de todas as coisas que já foram nossas. Digo casa, pedra, carro, rio, monte, flores, mar…e repito as palavras inventadas até à hora de partires.

O carnaval instalou-se para sempre. As máscaras colaram-se ao corpo, o fogo apagou-se e apenas ficou a memória dos olhos noturnos que inspiraram este silêncio imenso sobre os ombros.


Deambulações ( 15)

E será proibido, apenas,  despirmo-nos da nossa própria pele. Tudo o mais poderá acontecer. Recusarmos a concha, vendermos a alma, sujarmos os sapatos, roubarmos maçãs. Recolher as estrelas, todas as estrelas, roubar a cara da lua, apagarmos o sol, morrermos de riso, pintarmos o céu, esmigalhar ocasos.

 Estaremos entre aspas, permitindo que cada um seja apenas a metade do rosto do outro. Podemos confundir as mãos, misturar os corpos, plasmar sorrisos.

Pensei em irmos os dois esconder a paisagem nos olhos, queres? Ou então enterrarmo-nos na areia, lá, onde o mar encontra a terra e nela despeja o seu hálito de algas e a foz aparece, como um pano de fundo que ninguém consegue lavar.

Podemos ser peixes, quem sabe…Ou aves, podemos sempre ser aves. Afinal já limpámos as asas.

 Ah! Lembrei-me que há dias em que gostas de ser palavra. Podemos juntar as letras ao acaso, sem nexo, para não dizermos nada e podermos apenas ler as páginas do olhar.

Telefona-me. Diz-me que programa te apetece fazer…se te interessa o norte, ou o deserto, ou aquela montanha onde já fomos árvore um dia. Serei tudo o que quiseres.

Hoje o meu dia és tu.


                                                                         

Deambulações (14)

A casa amarela

Era uma casa, casa. Daquelas em que as almas se unem mal a porta se abre e o silêncio fala por qualquer palavra.

Era velha. As teias de aranha arrastavam-se pelos cantos, a humidade tomava conta de alguns espaços. A lareira grande, na cozinha, deixava-nos sentar no seu interior a conversar sossegos, enquanto os gatos se aninhavam entre as cinzas e o cão se protegia debaixo de uma cadeira. Sempre a mesma.

À volta da casa havia um jardim que era mais um amontoado de coisas, cada coisa com o seu significado e lugar vagabundo, canteiros, muitos canteiros, com flores, flores bem amadas, como tudo o que respirava naquele espaço.

 De vez em quando as galinhas soltavam-se e andavam à nossa volta a tentar expiar-nos as conversas, os desabafos e os segredos, e ficavam depois a bisbilhotar entre cacarejos emudecidos e bicos envergonhados acariciando o chão. Havia sempre batatas escondidas na adega, e uma árvore incandescente na eira.

Nada estava ali por acaso, como se tudo fizesse parte de um plano primeiro e único que tinha a ver com a harmonia de um caos amplamente planeado.

 Mais além, a quinta, o pomar, a terra com os alhos que cresciam à custa de algumas rezas, as abóboras enormes à espera que alguém as transformasse em carruagens de brincadeira e a laranjeira, que nos exigia uma subida que eu nunca arriscava.

Parecia que o que ali faltava, não faltava. Que ali estava tudo o que era necessário à existência de quem lá entrasse. Havia um saco de peúgas velhas, desirmanadas, que dizíamos ser para a nossa velhice e até os ratos dançavam à noite, em liberdade, nas traves velhas do  sótão. Havia a velha aranha na cozinha do forno que sempre me assustava, uma coleção de cristos partidos no quarto que um dia preparámos com uma pressa inusitada e o armário, que servia para guardarmos tristezas e maus pensamentos, sempre fechado à chave. Para que nada saísse.

Era uma casa, casa. Uma casa Lar.

Um dia, perdi a estrada para lá. Lembrava-me de tudo, sobretudo da felicidade de abrir as portadas, quando acordava, de manhã. Lembrava-me de tudo, todos os dias. E não percebia por que razão tinha esquecido o caminho.

Mas agora soube que a casa tem uma janela aberta por onde posso entrar e sei que tu estás lá, e, quem sabe, a teimosa aranha, as galinhas curiosas, a cadela velhinha, os gatos de passagem.

E voltei a lembrar-me que a casa amarela fica ao fundo, à esquerda, na via láctea de uma amizade que afinal ainda não perdeu o céu.


Deambulações (13)

Asas

Rasguei os momentos. Assim, como se rasga sem querer o vestido que se adora ou o bilhete que já não nos diz nada. No chão espalharam-se bocados de todas as cores , cada um tocando o som de uma história inacabada, como se em nenhum dia eu tivesse existido na realidade de um personagem.

Rasguei os momentos. Os que queria e os que não queria, no gosto de os perder, com medo apenas de te perder, a ti, que és o momento .

E o que tenho agora chega-me para uma eternidade: esta vontade de voar, de vibrar nas cordas de todos os violinos do mundo e, por mais um instante, um instante de nada, continuar a ser ave. Aquela ave que vive no fundo dos teus olhos e que eu sei que um dia também partirá.

Mas até lá, não haverá céus que cheguem para as minhas asas.



Deambulações (12)

tarde

Dois anos depois ele descobriu que ela existia, como existem as flores que dançam, as árvores que ensombram, as nascentes que são rios, os caminhos que são estradas, os olhares que cristalizam, as sombras que amadurecem.

Dois anos depois ele descobriu que ela existia como as palavras que se calam, como um eco estendido no deserto, como um cavalo solto na orla da espuma, como um sorriso da pele dançando no toque dos corpos. Descobriu que não existem silêncios que cheguem para calar a saudade e que era possível perder-se sem jamais se encontrar. Dois anos depois ele descobriu que era possível vaguearem ambos pelo universo como um único sonho que não tinha fim e que, inconscientes, podiam adormecer juntos em nome da noite, quando se lia já no horizonte a ambígua promessa da manhã. E que no limite de tudo, podiam até morrer devagar, afogados um no outro.

Dois anos depois ele descobriu que nem sequer tinham um nome. Nem ele. Nem ela.

Mas nessa altura, já ela se tinha fundido com um ponto qualquer do universo, tal como tinha prometido. Um ponto que ele já não conseguia ver.

Dois anos depois ele descobriu que “o nunca é tarde” pode ser uma mentira.



Deambulações (11)

Eles partiram carregados de nada. Levaram-se uns aos outros pela estrada fora , estrada que era nenhuma, que era todas as estradas que existiam entre este e o outro lado do universo. Iam nus de malas e recordações. Partiram como quem vai, nunca como quem fica.

Ela foi ficando do lado de cá da vida, carregada de tralhas inúteis, lembranças brancas, caminhos nenhuns. Entre quatro paredes, vários nomes, mil e uma promessas, catorze ansiedades. Tudo por resolver.

Ao princípio sentiu-se só. A ausência dos sons ecoava pela casa como uma ânsia de dedos pelo piano. Lá fora a liquidez do céu transfigurava-se nas claves das nuvens que se moviam em torno de uma única ave. A ave cortava o céu também com o silêncio no bico.

Depois habituou-se a subir, noite após noite, até ao reflexo da lua sobre o lago de bronze. Dali passou a avistá-los, vigiá-los, até acariciá-los. Foi perdendo o seu próprio tempo. Já não era mais do que um som, um murmúrio, um deslizar de estrelas no convés da noite. Um sopro a procurar borboletas nas esquinas sonâmbulas da cidade e a esperar que houvesse um poente para abrir a porta à noite.

Na proa da sua vida , como um farol, o perfume do vinho que outrora lhes enchera, um a um, os copos.


Deambulações (10)

O tempo, aqui, para.
Como param os relógios, ou os comboios nas gares que já pisamos juntos. Se
fixar um pinheiro, daqueles que nem se agitam por baixo da varanda que dá para
um rio que já não se vê, posso ver crescer o tronco, na lentidão dos segundos
corre. Como se houvesse uma relação contrária. A memória anda a destempo. Tanto
que nos escapam das mãos. Percebi agora, que quando o tempo para, a memória mais rápida quanto mais lentos são os minutos. Talvez por isso me soem nos
época em que as estações se confundiam e não paravam de nos crescer árvores no
ouvidos todos os nomes. Todos os nomes que já me sussurraram ao ouvido numa peito. As velas acesas. As noites sob o luar, quando a fogueira era aquela
juras que fizermos. Pedro Barroso e o silêncio. Caetano e a ausência. Caminho
chama que acompanhava o nosso sono pelos aléns dos montes…Mais atrás, a minha primeira ida ao dentista. Mais à frente, aquela árvore que testemunhará as de velas, bilhetes que se trocam, e as palavras tão perecíveis como o papel
alguém, uma bebida. Um quase nada . Um quase tudo.
onde se estacionam, impúdicas, nuas. O tempo parou. Apesar disso envelhecemos todos, eu e as palavras .Não, nunca somos únicos e especiais . Há sempre um
pormenor mais importante, mais especial. Nem que seja um jantar, um outro


Às vezes é melhor desligarmos
os telemóveis. Assim, podemos ficar sempre a pensar que a culpa é do telefone
desligado.

Deambulações (8)
As mulheres trazem lenços colados ao pescoço e caminham pelas bermas, caladas. A estrada é de pó e pedras, caminho do avesso de qualquer destino, onde espreitam apenas memórias e lágrimas. Às saias das mulheres agarram-se uma dezena de mãos de crianças, desprovidas de braços ou pernas. Mãos apenas. No coração das mulheres brilham dois olhos feitos de estilhaços de bombas.
Na pausa de uma premente eternidade, uma delas afastou o vidro da televisão, entrou, silenciosa e muda, na sala e parou. Ali mesmo, a meio caminho entre a estrada de pó e o sofá de couro onde eu me sentava, descansada, olhando, com pena, os olhos das crianças que eram só mãos.
A mulher então levantou a mão, devagar, muito devagar, ergueu um dedo e apontou-mo.
A bala saiu sem eu a ouvir.
Raspou-me ao de leve a pele e alojou-se por inteiro no centro da minha consciência. Nem sei a hora em que morri.
As mulheres taparam a cara com os lenços que traziam atados ao pescoço e continuaram a sua caminhada pela berma da estrada de pó e pedras, caladas.
O campo de refugiados ainda não se avistava no horizonte castanho e eu já não tinha olhos. Nem alma. Nem mãos.




Deambulações (7)
Esplanada de antúrios sobre o mar.
Tu tinhas a mão aberta sobre a mesa e o indicador direito liberto de aliança. A cabeça pousava no ombro como um espelho absorvendo a sonolência da água. Estavas sentado no rebordo de um copo, de costas voltadas para mim e raspavas por baixo e na margem o verso de uma folha de papel, virgem, calada, branca. A caneta caíra de bêbeda na poça da cerveja derramada e no copo vazio, peixes gritavam ao rubro. Sobre o teu olhar despontavam desejos verdes, maduros, e no espaço entre as minhas costas e as tuas cresciam, do chão, vontades de silêncios com corpos e sombras emolduradas e crescia o fluxo de impulsos numa fusão de sinais.
Ao longe a areia parecia, por dentro, uma harpa de sons.
Eu bebia narcisos e nenúfares e imaginava que dos teus lábios nasciam pólen e flores.
No entanto, sabia que tinha desaguado ali com uns minutos de atraso.
A minha hora era não estar ali. E a tua mão era tão grande que o papel teimava em manter-se em branco.




Deambulações (6)
Hoje trouxeste-me uma pedra. De um cinzento liso e lavado escondida no teu dedo anelar. Pelo tamanho, devia pesar quilos, mas nem essa loucura te cansava. Deste-ma ainda não tinhas entrado em casa. Segurei-a com cuidado, como se segura um sonho ou um rasto de asas ou uma pegada que não queremos deixar impressa na areia. Enquanto a segurava, a pedra diluiu-se em mar, esse mar de terra, de céu, de água que se acumula numa qualquer esquina do teu percurso diário e que tu pegaste como teu. Escorria agora lentamente da minha mão para a tua pele e ia deixando um rasto de sal entre mim e ti, onde um sol redondo se punha inocentemente com uma pergunta nos lábios. Quis responder ao incêndio que esse por de sol originou na porta do nosso corpo, enquanto as paredes ardiam, as cortinas desapareciam rapidamente e um monte de cinzas, cinzento liso e lavado, se formava de novo debaixo do teu dedo anelar. E quando o fogo acabou com o que restava de sólido entre nós e o mar nos afogava rapidamente, fechei a porta e ficámos ambos pendurados no horizonte a fazermos promessas de uma eternidade que não é nossa, com a pedra e as cinzas emoldurando-nos as mãos. Ainda que o fogo e o mar nos tivessem já roubado as mãos e eu e tu fossemos apenas eu e tu.




Deambulações 5 - Envelhecemos
Ao longe um latido e a vila embalada por um rio. Ao longe um carro, capot aberto, e a lua subindo no céu como uma escada de estrelas.
Debruço-me sobre um ontem. Fazíamos fogueiras quando o sol ainda era redondo. Fazíamos fogueiras debruadas de palavras e vinho e nadávamos nus em rios por inventar.
Estávamos no horizonte de tudo, intensamente, quase no limite do deslumbramento, por onde entrávamos com a magia de uma infância que ainda nos pesava. Penso que ainda éramos crianças e por isso a magia. Vivíamos do espanto, das estrelas, dos montes e por nunca nos desbravarmos chegávamos até a conhecer-nos.
Tínhamos olhos de montanha, lábios de lua cheia, cabelos de rochas, as mãos de árvores. Tudo em nós era céu e terra e pedra ou rio. Tudo em nós era sensação, sentir, sentido. Tocávamos e éramos tocados. E nunca pedíamos mais nada uns aos outros do que o direito ao silêncio e o privilégio de sonhar.
Era o tempo das amizades mais puras onde nos libertávamos dos nomes, o tempo de Gismonti, de Laurie Anderson, do uivo, do riso, da Pedra Bela, dos sacos cama cobertos de terra. Porque era na terra que dormíamos, com cobertores de estrelas e travesseiros feitos de caruma. Era o tempo de acreditarmos que podiam chover estrelas e que nunca, mas nunca, seria possível envelhecer.
E no entanto, envelhecemos. Eu, tu, o vinho e as estrelas.




Deambulações 4 - Cais de pedra
Houve um tempo em que não havia tempo. Saíamos do trabalho, num intervalo de nada, para roer umas sandes nos rochedos. Ali, onde rio e mar se abraçam. Creio que havia um farol, também, mas nem sei se fui eu que o inventei, tantos anos passaram sobre o pão que comíamos.
Líamos Pessoa ou colecionávamos silêncios. De vez em quando as mãos roçavam como se por acaso, mas não havia nisso acaso nenhum. Tudo parecia perfeito se bem que o soubéssemos impossível. E por ser impossível o repetíamos com aquele ar de quem não quer a coisa que sempre nos caraterizou.
Naquela altura eu achava que tu eras maior do que tu próprio. Na realidade, maior do que qualquer outra pessoa ou momento. Naquela altura pensava o quão pequena eu era. E era.
Sei exatamente o momento em que te deixei fazer ninho junto da minha aorta, a ti, que sempre foste pássaro! Foi quando saíste do carro e pegaste ao colo um mendigo que adormecera na berma do passeio com as pernas a caírem na estrada, como asfalto. E o colocaste com ternura no passeio. .Não falámos nunca sobre o assunto, como se aquilo não fosse assunto mas foi nessa altura que percebi que não importava o pássaro que eras, mas sim o imenso tamanho das tuas asas.
Naquela altura havia menos gaivotas e mais traineiras. Contávamos as traineiras. Não me lembro se levávamos vinho, mas ainda me lembro do teu nome e de ficar como que embriagada. Talvez a culpa fosse do mar que era, então, etílico e me toldava os sentidos. Ou talvez houvesse mesmo vinho, e fosse o mar que não existia. Nem sei.
Passaram imensos anos….se calhar o mar já não passa por aqueles rochedos , o mendigo provavelmente morreu e agora há mais gaivotas para contar do que traineiras.
E nós , perdidas as pedras e Pessoa, nunca esquecemos a data dos aniversários.
Hoje nem sei se inventei isto tudo, só pela necessidade de justificar que ali, perto do Passeio Alegre, havia outrora mar e pedras e talvez um farol e, de certeza, as migalhas que por lá deixámos.




Deambulações ( de quem tem tempo) 3
A fazer de porta crescera um penedo, que ele contornou para entrar em casa. Uma onda suave chegou-lhe aos pés e ele sorriu.
Nas paredes, cem, quinhentos, mil búzios pendurados, outros tantos poisados aqui e ali, pelos poucos móveis que se colavam às paredes. Tudo imaculadamente lavado, envolto naquele cheiro a maresia que chegava por todos os lados e que até dos seus poros já se desprendia.
Sete ondas suaves, sete maiores chegaram à soleira da porta e recuaram pelo quarto, cozinha, sala…E o som, aquele som do mar, que sempre o inebriara.
Lembrou-se.
Fora o seu avô que lhe oferecera o primeiro búzio, e lhe dissera para o encostar ao ouvido. E, nesse momento, o mar entrara-lhe para sempre na cabeça, ocupara-o todo, órgão a órgão, tomando conta de todos os espaços do seu corpo. Nessa altura, passara um pano pelo ouvido, pano no qual ficaram inúmeros cristais de sal que ele guardou como diamantes. Ainda hoje lhe cresciam sal e vagas nos ouvidos. Depois foram sessenta anos de procura e recolha. Tinha-os de todos os tamanhos e feitios. Aos poucos esvaziou a casa para a encher de conchas.
Um dia, veio o aroma de algas verdes. No outro surgiram pequenos peixes. Depois chegaram as ondas, saíam das conchas e voltavam a elas, suavemente. Sempre à mesma hora que saíam, e cada vez mais tardavam a entrar.
Dantes ele dormia dentro de um búzio, na posição fetal, enrolado como um bicho da conta, mas agora que envelhecera, percebeu que eram os búzios que se deitavam dentro de si, sem pedir licença, como se no sonho a mistura de realidade e fantasia se calcificasse.
Olhou-se no reflexo do que fora, agora as suas pernas eram corais, as mãos feitas de areia fina e o coração um barco afundado, cheio de restos de viagens e viajantes.
Naquela noite, sabia, seria completo oceano.
Faltava-lhe apenas que a sua cabeça se despedisse das memórias ainda humanas e se transformasse em estrela. A custo estendeu-se no chão salgado da casa, apagou minuto a minuto as lembranças e deixou que lhe crescessem cinco pontas na cabeça.
E foi assim que morreu do que lhe restava de humano.




Deambulações 2
Abriu a porta. E entrou. Apercebeu-se que havia um vazio incolor, inodoro, liberto de tudo. E no entanto, cada coisa estava no seu lugar, da mesma forma imaculada de sempre. Os móveis roçando as paredes, cortinas imensas trepando pelas janelas, o cão de louça no canto da sala, as flores vermelhas fugindo da jarra. Como todos os dias dos últimos trinta anos, a mulher, na cadeira de baloiço, fazia renda e da renda desprendia-se o hálito de boas vindas, gasto, velho, fortuito. Aparentemente nada se manifestava para além do habitual.
Percebera há muito que ali já não existiam palavras, apenas ecos e silêncios que chegavam para esvaziar o dia. Percebera que já não era possível adormecerem juntos em nome da noite e que, no limite de tudo, apenas lhes restaria morrer devagar. E que já nenhum tinha nome. Nem ele. Nem ela.
Mas hoje era diferente. Sabia que outra coisa se perdera. Abriu a porta. E entrou em si. E viu que já não tinha alma. E que essa alma se perdera naquela casa ou naquele corpo, algures, num tempo sempre igual e indefinido. Então, cansado de abrir portas, saiu pela janela e partiu.
Tal e qual partem os pássaros.



Deambulações 1
É quase Inverno. Também no Porto.
Sigo pela marginal, manhãzinha, os olhos dançando sobre as formas e as cores. O silêncio descansa na calçada, quando a cidade se prepara para chegar a tempo aos primeiros acordes da manhã. Uma luz húmida, ensonada ainda, talvez um fumo, desprende-se do rio lentamente e pouco a pouco desenha os contornos do casario escuro.
Furtivos gatos, quase sem dono, roçam-se nas bermas. Está frio. Enrolo-me no cachecol, nas luvas, no gorro, para assistir ao espetáculo contínuo do dia a crescer dentro de uma cidade de inverno.
O tom é cinzento, e as roupas da véspera que secam nos beirais, escorrem agora suores nocturnos. Têm um ar abandonado, como o daquele mendigo que se descolou da parede branca da casa para vir ao meu encontro de palma aberta.
E a manhã instala-se assim, inteira, nua, rua a rua, vulto a vulto. A manhã acorda as crianças da escola, pescadores, comerciantes, arrumadores, gente que trabalha, outra que se espreguiça, como se, o que restasse de noite, ficasse adiado para outra vez. Há pressa nos passos, mãos que se esfregam, casacos que se cruzam sobre o peito e, aqui e ali, sobrevive ao frio um gesto de carinho.
Avanço ao encontro do mar. Ultrapasso o farol, fustigado agora pela chuva fina, nó e laço entre as portas do céu e da terra.
Desaguei assim, junto ao mar. As ondas cresceram, desde a última vez que aqui estive…grandes, com uma renda branca na ponta, fustigando areias e pedras , tapando o areal, quase escorraçando as últimas e mais resistentes esplanadas da Foz.
Fico-me por ali, a contar possíveis gaivotas, abandonada ao sonho.
O dia cresce, as horas acordam a tarde, que não tarda em chegar, e o Porto desnuda-se , por fim, num fervilhar de vida. Do Molhe, olho a Avenida com as suas últimas árvores, brilhantes de chuva e vivas de vento, e começa a apetecer-me chegar, enfim, ao meu porto, à minha casa, à minha lareira, ao sofá onde me enrolo para melhor saborear a noite longa, o chocolate com leite e o desabafo da chuva sobre o meu telhado.
Há uma cor cinzenta, parda, em torno dos edifícios, e o horizonte torna-se indistinto e cada vez mais longínquo. A noite insinua já um convite manso. Pessoas regressam, como eu, apressadas e friorentas, a um ponto qualquer das suas vidas. Fecham-se os casulos de cartão, as portas de madeira, as janelas, os anúncios de néon.
Os gatos adormecem. Nem a lua permanece. É quase inverno.
O silêncio é uma voz trocada pelo vento e restam na cidade as sombras. E um ou outro sonho que a vela.
E o Porto, quase adormecido, aconchega-se a nós e volta a parecer mais nosso.


 

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